sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Carta aos democratas


Eduardo Faria Silva, professor do
Mestrado em Direito 
Divulgação
*Eduardo Faria Silva

As manifestações de ruptura institucional organizadas na semana da independência do país deixaram uma mensagem clara: a direita e a esquerda precisam firmar um pacto político em defesa do regime democrático. O acordo passa, necessariamente, pelo fortalecimento do sistema eleitoral brasileiro contra ações que visam deslegitimá-lo socialmente para justificar uma posterior ruptura.

Regimes democráticos têm um mecanismo de funcionamento em que a situação e a oposição competem ao longo dos anos para convencer o cidadão-eleitor que suas respectivas propostas são as melhores para o país. Ao término do pleito, quem tiver o maior número de votos vence e, ao perdedor, cabe reconhecer o resultado. A lógica democrática é simples e permite o confronto de ideias entre direita e esquerda.

A simplicidade – como disse Leonardo da Vinci – deve ser entendida aqui como “o último grau da sofisticação”. Quer dizer: a democracia contempla na sua simplicidade a pluralidade de pensamentos e se fortalece com o reconhecimento das diferenças. Ela é a forma mais elevada de organização de massa que construímos e que possibilita o exercício pleno das liberdades. Essa é sua essência e deve ser absolutamente preservada.

Eleições livres são uma carta de navegação aos democratas de direita e de esquerda. Elas que descrevem exatamente o caminho do desenvolvimento político do humano. A direita e a esquerda não são inimigas, mas bases de pensamento distintas da forma como se vê e se deseja construir o mundo. Pensamentos diametralmente opostos, na democracia, devem ser trabalhados no campo do dissenso apenas e jamais do despotismo.

Os fundamentalistas, no caso, da extrema-direita mundial e, por consequência, a brasileira, que enxergam o outro que pensa diferente como inimigo a ser exterminado. É a lógica da guerra e, no âmbito da política, a ação que deseja implantar um regime autoritário, criando um populismo messiânico que divide as relações entre “nós”, do bem, e “eles”, do mal. Aprofundando um pouco mais no tema, como escreveu Jason Stanley, essas ações se traduzem em uma política de matriz fascista que trabalha simultaneamente na psique dos cidadãos: o passado mítico, a propaganda, o negacionismo, a anti-ciência, a realidade paralela, a hierarquia, a vitimização, a lei e a ordem, o apelo sexual, o patriotismo exacerbado e a desestruturação do bem-estar público.

Alguma semelhança com o Brasil de hoje? Pensem no mito, no cidadão de bem, na ideia de que o país era melhor na ditadura, nas milícias, nas mensagens contra o uso de máscara, nos discursos contra a vacina, no pensamento que a terra é plana, na falta de investimento na ciência, no uso da força bruta para colocar ordem entre os vulneráveis, na militarização das escolas, na destruição do meio ambiente, na fragmentação das redes de apoio e de assistência social. Na confrontação direta com o regime democrático, vemos a afirmação de fraude em relação às urnas eletrônicas (que sempre elegeram o mito e seu clã), nos pedidos de intervenção militar, no questionamento do trabalho da Justiça Eleitoral etc.

As evidências mostram que é o momento de construção de um pacto nacional com grupos políticos de direita e de esquerda em defesa das instituições democráticas. As diferenças de projetos políticos naturalmente continuam, mas há a necessidade de se formar uma unidade para que se responsabilize aqueles que financiam atos antidemocráticos e que agem para uma ruptura institucional. Não há outro caminho se desejamos um país que continue sua caminhada política democrática e com eleições livres.

*Eduardo Faria Silva, professor do Mestrado em Direito e coordenador da Escola de Direito e Ciências Sociais da Universidade Positivo.


**Artigos de opinião assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião da Universidade Positivo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Famílias que enfrentaram a covid-19 formam rede de apoio e trocam experiências

Pacientes que sobreviveram às complicações da doença acabam sendo exemplos de esperança e são procurados por pessoas de todo Brasil

A estudante paraibana, Geovania Santos, viu a história de superação da covid-19 do advogado paranaense Guilherme Kovalski em uma rede social. Após perder uma tia para a doença e com o tio em estado grave no hospital, mandou mensagem perguntando sobre o processo de recuperação após 7 meses de internação pela doença. “A história do Guilherme me tocou e as palavras dele foram um alento para a minha família que enfrentava o luto e as incertezas da doença”, conta. Assim como Geovania que mora no município de São Mamede (PB), a quase 3 mil km de Curitiba, outras pessoas de todo o Brasil procuram o advogado e outros pacientes ou familiares para troca de experiências e apoio.

Pessoas de todo o Brasil procuram o advogado
paranaense, Guilherme Kovalski,
para troca de experiências
Créditos: arquivo pessoal

“Mesmo na UTI a gente observa essa rede de apoio que se forma com pessoas que passam pelos mesmos desafios. Familiares muitas vezes nos relatam essas conversas e trocas que são muito benéficas, porque essa corrente de esperança e otimismo ajuda na melhora do paciente”, conta o coordenador da UTI covid do Hospital Marcelino Champagnat, onde Guilherme ficou internado, Jarbas da Silva Motta Junior.

Trocas de experiências e novos caminhos

“Eu vejo o quanto foram importantes para mim as palavras positivas que recebi dos médicos e da psicóloga durante a internação do Ciro e tento replicar”, afirma a dona de casa Deisi Godói, que perdeu a mãe para a covid-19 no mesmo dia em que o marido estava sendo intubado devido às complicações da doença. Hoje, ela é procurada por amigos e até pessoas que não conhece para contar a sua experiência e passar sua história de fé e otimismo.

Mais de 21 milhões de pessoas testaram positivo para covid-19 no Brasil e o número de mortes passa de 589 mil. Uma pesquisa do Ministério da Saúde divulgada no mês de abril apontava que cerca de 30% dos brasileiros procuraram apoio psicológico e outros 32%, mesmo sem buscar atendimento, gostariam de receber. Nesse cenário, a rede de apoio se torna ainda mais importante. “Esses dias conversei com uma mulher que estava com o marido internado e a família era composta por vários médicos. Mesmo assim, de alguma forma, consegui acalmá-los. Infelizmente, o desfecho foi diferente do Ciro. E isso faz com que eu seja cada vez mais grata à vida do meu marido”, reforça Deisi. “Me sinto tão feliz com essa troca, que hoje penso em cursar psicologia e seguir novos caminhos”, planeja a dona de casa.

Sobreviventes

Professor de química Robert Gessner oferece palavras de apoio aos
seus alunos que estão com familiares internados
Créditos: arquivo pessoal

O empresário e fisiculturista Kaique Barbanti ficou 62 dias na UTI, sendo 23 na ECMO, máquina que funciona como pulmões e coração artificial. Mesmo com histórico de exercícios físicos e sem comorbidades, a covid o deixou debilitado, com 30 quilos a menos e necessidade de muita fisioterapia para voltar a rotina. “Você acha que vai morrer sozinho. Depois que contei minha história em uma rede social meu número de seguidores disparou e todos os dias recebo muitas mensagens de pessoas que estão com alguém no hospital, que querem saber mais da minha trajetória e de como superei a covid-19”, diz.

Da mesma forma, o professor de química Robert Gessner oferece palavras de apoio e incentivo aos seus alunos que estão com familiares internados devido à infecção do coronavírus. “Eu quase perdi a minha vida pela doença e precisei de meses de fisioterapia para poder voltar a fazer o que mais amo, que é dar aulas. Ver que consigo aliviar um pouco a angústia desses adolescentes com a experiência que eu tive, é algo que me faz muito bem”, afirma.


terça-feira, 7 de setembro de 2021

Branding: a exemplar gestão de portfólio da marca JEEP

O mercado automotivo no Brasil tem passado por muitas mudanças. Quando eu comecei a acompanhar este segmento (no século passado rsrs), a líder de mercado era a Volkswagen, com o Gol, e atuava no país por meio de uma joint venture com a Ford, chamada de Autolatina (durou de 1987 a 1996).  O número de montadoras era pequeno e as outras duas que se destacavam eram a General Motors e a Fiat. 


Gol foi líder de mercado de 1987 a 2013

Ao longo das décadas, as mudanças foram muitas: a liderança de mercado da Fiat, a ascensão dos carros populares de motor 1.0, a entrada de novas montadoras europeias e japonesas, como Renault, Toyota e Honda, entre outros fatores. 

Poderia me deter em cada um desses aspectos, mas essas observações são um preâmbulo para eu abordar um assunto mais atual: o portfólio Jeep no Brasil e como a marca se destaca a partir do novo perfil de consumo de carros de passeio: o crescimento da categoria de SUVs, que hoje é a favorita do brasileiro.    

Basicamente, a Jeep tem 4 modelos e suas versões no mercado brasileiro, um portfólio bem enxuto, especialmente quando se compara com a General Motors/Chevrolet que tem cerca de 10 modelos (sem contar as versões).  

Mesmo com esse portfólio pequeno, a Jeep ocupou em 2020 a 8ª posição  no ranking de montadoras, sendo que o Renegade esteve na lista dos 10 modelos mais vendidos no ano, na 9ª posição.

Jeep Renegade

O portfólio da Jeep e a posição que os modelos ocupam nos rankings de vendas, em minha avaliação de marketing, confirma que é melhor ter um bom posicionamento e reconhecimento de marca, diferenciais consistentes nos produtos do que ter uma linha complexa, mais difícil de administrar e de aportar investimentos em todas elas.  

Em 2021, o mercado de SUVs está se consolidando como a principal do segmento automotivo e vários lançamentos foram realizados no ano para desbancar as posições do Renegade (1º) e do Jeep Compass (3º) no mercado.

Jeep Compass

Vale acompanhar esta tendência e verificar como o mercado evoluirá nos próximos meses. Mas, a Jeep não tem do que reclamar, mas ser alvo do concorrentes demanda muita estratégia e manutenção da excelência.